A expedição Aconcágua 360° começou como começam as boas histórias: passo a passo, em silêncio atento, deixando a montanha se apresentar no seu próprio ritmo.
Claudio Migray, Gustavo Cordoni, Leonardo Rodriguez e Jason Medcalf formavam um time diverso, unido por um mesmo propósito: viver a experiência completa do Aconcágua, respeitando o tempo do corpo, da altitude e do ambiente. À frente, a condução segura e experiente de Carlos Santalena e Bernardo Oliver, líderes cuja trajetória na montanha se traduz em decisões calmas, leitura precisa do terreno e, acima de tudo, cuidado genuíno com as pessoas.
Nos primeiros dias de aproximação, o grupo já mostrava sintonia e consistência. Na caminhada até o Pampa de Lenas (2.870 m), foram 4h39 de atividade, 13,2 km percorridos e 751 m de desnível positivo. O ritmo era constante, o clima colaborava e, no acampamento, o descanso seguia exatamente como o planejado.
A jornada continuou até a Casa de Piedras (3.200 m). Foram quase 6 horas de caminhada, 15,7 km e mais 641 m de ganho de altitude. O corpo respondia bem, a aclimatação seguia sólida e o grupo avançava com confiança.
A chegada ao Campo Base Plaza Argentina (4.200 m) marcou uma transição importante da expedição. Nesse dia, o grupo percorreu 11,1 km, com 1.072 m de desnível positivo, em 5h35 de caminhada. O campo base é mais do que um ponto logístico — é onde o silêncio pesa mais, o vento muda de tom e cada decisão passa a ter ainda mais significado.
Seguiram-se dias de organização, descanso ativo e estratégia. Subidas controladas até os 5.000 m, levando equipamentos e mantimentos ao Campo 1, preparando corpo e mente para o que viria. Caminhadas duras, terreno exigente, mas com todos chegando bem e mantendo uma aclimatação consistente.
Após um dia inteiro de descanso, o grupo fez a subida definitiva ao C1 (5.000 m). Foram 4,19 km, 3h41 de subida e 819 m de desnível positivo. A altitude agora cobrava presença total. Menos distância, mais intensidade. Cada passo exigia atenção, respiração consciente e confiança no processo construído desde o início.
Na noite anterior ao ataque ao cume, o acampamento respirava diferente. O silêncio já não era apenas descanso — era concentração. Carlos avisou familiares e amigos que a equipe sairia por volta das 5h da manhã, com o rastreamento ativo, permitindo que cada passo pudesse ser acompanhado à distância.
A madrugada nasceu clara. Sem vento. Sem pressa. O grupo deixou o acampamento alto sob um céu aberto, daqueles dias raros em que o Aconcágua permite a passagem. A subida foi longa e exigente, com cerca de 8 horas de ascensão, enfrentando o desgaste acumulado e a altitude extrema.
O cume veio em um dia excepcional: céu aberto, quase sem vento e pouco frio — condições raras em uma montanha conhecida por sua dureza. A experiência no ponto mais alto das Américas foi profunda e silenciosa. Não houve euforia, mas presença. Um tipo de emoção que se sente mais no peito do que no sorriso.
No total, foram 7,09 km, 12h56 de atividade e 1.196 m de desnível positivo. Todos chegaram bem, fortes e conscientes da dimensão do que haviam vivido. E naquele momento, Claudião esteve presente — não fisicamente, mas nas mentes e nas almas, lembrando que a montanha também é feita de vínculos, memória e significado.
A descida exigiu o mesmo cuidado da subida. Já de volta ao acampamento alto, por volta dos 6.000 m, a equipe se reuniu novamente em segurança. Comida quente sendo preparada, botas afrouxadas, olhares cansados e satisfeitos. Logo, o merecido descanso.
Foi um dia — e uma expedição — muito especial. Daqueles que não se explicam apenas com números, fotos ou relatos rápidos. Fica no corpo, na memória e na forma como cada um retorna.
Essa é a essência do Aconcágua 360°: não apenas chegar ao cume, mas viver a montanha por inteiro — com método, respeito, cuidado e humanidade.
